
por Jaime Lerner
Se hoje me pedissem para resumir numa única palavra a função urbana, diria: é o encontro. A cidade é o cenário do encontro. Encontro que deve ser promovido em todas as atividades da vida urbana. Estas atividades devem ser estreitamente vinculadas e nunca separadas, seja nas cidades novas ou nas cidades já sedimentadas.
A separação das funções da cidade foi conseqüência de uma interpretação errônea da "Carta de Atenas". Até hoje se perde a visão global da cidade, decompondo suas funções e avaliando suas necessidades, diagnosticando o óbvio e prognosticando a tragédia. A cidade assim pensada é uma projeção da tendência, de tudo aquilo que não queremos que continue, de tudo que não interessa consagrar.
Tudo acontece no palco da cidade, porque ela é o cenário do encontro, da grande festa do viver urbano. O cenário, assim como o transporte, induz a ocupação futura, a direção do crescimento, o encontro, a animação. O cenário pode induzir a integração do setor informal com o formal.
A invasão da pobreza, que se dá até pelo seu maior contingente numérico, é uma realidade cada vez mais visível. É crescente a ocupação das áreas livres de maneira ilegal, seja para se estabelecer, seja para exercer alguma atividade capaz de gerar renda. Ao mesmo tempo, ocorre a invasão das elites, das classes dominantes, através da mídia, da moda e do design de alta tecnologia. Uma invade o espaço físico; a outra invade a mente.
A melhor maneira de integrar a cidade informal (favela, ambulante, menor abandonado) à formal é pela criança - um processo lento e com resultados a longo prazo - e pelo aumento das trocas entre as populações de renda mais alta e as populações de renda mais baixa.
Isso pode se dar não apenas pela administração do espaço, mas sobretudo pela administração do tempo. Ao invés de conceder espaços físicos permanentes - e conseqüentemente distantes dos espaços "nobres" - para o exercício das atividades mercantis, por que não conceder espaços melhores em dias determinados e por determinado tempo? É uma invasão consentida e regular, que permite melhorar as relações de troca.
É preciso racionalizar o uso, escalonado no tempo: rua para estacionamento, rua para feira, rua para animação cultural, eixo para distribuição de mercadorias. Cenários cambiáveis podem reconstituir o cenário perdido e trazer o passado à rua, promovendo a animação. As ruas de uma grande cidade têm que estar preparadas para exercer funções diferentes durante as 24 horas do dia. Nenhuma cidade do mundo pode se dar ao luxo de deixar vazias durante tantas horas as suas áreas mais equipadas.
O cenário pode ser também o elemento transitório que ajuda a consolidar o projeto futuro. Em terrenos baldios e estacionamentos, cenários de continuidade impedem o vazio visual. Janelas pintadas quebram a monotonia de paredões vazios.
A cidade tem que ser preparada como uma estrutura aberta. Um organismo vivo, que oferece espaço, convivência, oportunidades para todos. E a rua é o cenário natural das trocas de bens e serviços.
A sociedade é a cidade. E a cidade é a rua. Rua no sentido de síntese da cidade, rua como integração de funções. Rua que é a alma de cada bairro, o cenário perfeito para uma estrutura de vida e trabalho. O caminho por onde todas as cidades começam poderá ser também a trilha do seu futuro.
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Artigo sobre Curitiba na Scientific American
Um comentário:
Concordo com o texto,a credito que se houvesse um melhor "distribuição" dos espaços, necessidades seriam supridas, mas um ponto que não foi tocado no texto e que eu acredito que é muito importante para essa questão de "divisão e funcionamento" é a fiscalização desses espaços. Acredito que por comodidade as pessoas tendem a criar novos caminhos, "atalhos" e fogem um pouco das regras, e se não houver ninguém para direcioná-las ao caminho principal, vai se criar uma comodidade que depois de um tampo pra reverter vai dar muito trabalho.
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